A desrama em plantios florestais é uma atividade viável?

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Mesmo sendo muito recente no Brasil, em poucas décadas, a poda deixou de ser uma atividade realizada com frequência. A alteração da demanda das indústrias madeireiras é vista como uma das responsáveis pela mudança do cenário, afinal ela passou a substituir a madeira maciça por chapas, compensados e painéis reconstituídos.

Quando o assunto é poda, muitas são as dúvidas dos produtores florestais. As mais frequentes são: quando e como fazer e se existe mercado consumidor. Porém a que tem maior poder de decisão é: a poda é uma atividade rentável? A resposta não poderia ser mais complexa, depende! A poda florestal, também conhecida como desrama, é feita, basicamente, por três motivos: combate a incêndios, facilidade de acesso ao talhão e maior qualidade tecnológica da madeira.

Para entender melhor é preciso saber a diferença entre poda baixa e poda alta. A primeira é feita objetivando esses três pontos, já a segunda busca apenas melhorar a qualidade do produto final. “Geralmente a poda baixa é feita por um profissional com uma ferramenta de cabo curto, o que significa um alcance entre 2,70 e 3 metros”, explica o Dr. Jorge R. Malinovski, diretor geral da Malinovski.

Com ela, a matéria orgânica com potencial de combustão é retirada da árvore, deixando um espaço entre ela e a copa, o que reduz os riscos das chamas atingirem as mesmas, como também facilita a passagem por dentro do talhão.

Jorge destaca que, na maioria das vezes, a poda baixa é feita em todas as árvores do povoamento. Já a alta é feita a partir da baixa e pode ser repetida uma ou duas vezes, preferencialmente nas árvores que deverão ficar para o corte final. Esta acontece acima dos 3 metros e tem finalidade específica de melhorar a qualidade da madeira. “Ou seja, é feita a retirada dos galhos para impedir o crescimento de nós na madeira”, explica.

Assim como na pergunta inicial, o momento certo para se fazer a poda também depende. “Sou contra a poda em função da idade do povoamento, pois ela não garante o diâmetro das árvores. O ideal é associar espaçamento, qualidade do sítio, a espécie utilizada e a qualidade do clone, com o diâmetro do núcleo nodoso referencial. Com a relação desses pontos fica mais fácil acertar no momento de realizar a operação”, afirma Jorge Malinovski.

De acordo com Denise Jeton Cardoso, pesquisadora da Embrapa com especialidade em crescimento de florestas, a prática da poda em plantações florestais, no Brasil, começou há pouco mais de 30 anos e desde essa época os produtores buscam pelo regime mais adequado. “A demanda por madeira sem nós surgiu da necessidade da indústria madeireira em melhorar o rendimento da produção, evitando perdas”, explica.

Porém, a tendência crescente de produção em larga escala de chapas de partículas mudou este cenário.

Tipos de nós

Nó é a porção basal de um ramo que se encontra no tronco ou peças de madeira, provocando desvios ou a descontinuidade dos tecidos lenhosos.

  • Nó vivo: ponto de inserção do galho no tronco fisiologicamente ativo, havendo perfeita continuidade de seus tecidos lenhosos com os do tronco;
  • Nó morto: corresponde a um galho que morreu e deixou de participar do movimento do tronco. Não há continuidade estrutural e a sua fixação depende apenas da compressão periférica exercida pelo crescimento diametral do fuste;
  • Nó solto: nó circular com grande parte dos tecidos já mortos que, devido à falta de aderência aos tecidos adjacentes e diferenças no comportamento de contração cai no momento da secagem.

De acordo com João Carlos Mancini, sócio-proprietário da Valor Florestal, normalmente a madeira sem nó tem maior preço de venda, porém depende do mercado consumidor e da cadeia produtiva florestal que o produtor poderá acessar. No entanto, “maior preço não significa maior rentabilidade e maior valor agregado”, ressalta. Segundo ele, há vários anos, a diferença de preços entre toras podadas e não podadas tem diminuído devido ao comportamento da demanda.

No sul do Brasil, ele exemplifica, anos atrás, esta diferença era de 80 a 100%, porém ela entrou em uma descendente e, atualmente, pode-se falar em 30 a 50%, dependendo da classe de diâmetro da tora, qualidade e mercado de destino.

“Quando observados os inputs de análise de fluxo de caixa e somados aos aspectos florestais, de rotação e mercado potencial, a estratégia de desramar as florestas não reflete em valor agregado para o investidor florestal”, acredita o sócio da Valor Florestal.

Ele ainda explica que do ponto de vista da grande maioria dos investidores florestais a poda não é uma operação vantajosa, pois a TIR% (Taxa Interna de Retorno) de projetos podados são menores do que os sem manejo. De acordo com Mancini, quando analisados os fluxos de caixa comparativos é importante ter claramente delineados os custos de cada alternativa, capitalizados ara o ciclo florestal, manejo considerado, a diferença de idade da rotação entre um projeto e outro, os efeitos da poda sobre o crescimento volumétrico das árvores, a taxa mínima de atratividade econômica e obviamente o spread do preço de um produto clear comparado ao sem desrama.

“Para a poda ser vantajosa do ponto da rentabilidade florestal o mercado teria que remunerar valores muito mais altos do que atualmente e a demanda precisaria ser crescente para este tipo de produto”, destaca.

Denise explica que o custo da poda está diretamente ligado ao número de árvores a serem podadas. Por isso, a estratégia de realizar a poda nos plantios florestais vem sendo discutida há mais de uma década na comunidade florestal.

Para Mancini, o que leva as empresas a tomar decisões diferentes está lastreado em diferentes premissas estratégicas e a visão sobre o seu negócio futuro. Muitas empresas no sul do Brasil e que são verticalizadas pararam seus programas de manejo florestal por meio de poda. Ou seja, a prioridade é maximizar a quantidade de fibra por unidade de área e ter maior rentabilidade dos projetos florestais com redução do ciclo do corte raso e com a eliminação de custos de manejo e de poda que afetam negativamente a taxa interna de retorno dos investimentos florestais.

“Somado a este fato, muitas empresas deixaram de realizar desramas por não encontrar oportunidades de mercado que remunerem a madeira a um preço que compense os custos capitalizados e a expansão da idade do ciclo florestal para conseguir extrair um bom volume de madeira clear das florestas”, afirma. Sendo assim, segundo Mancini, o grande movimento estratégico por parte das empresas florestais médias e grandes foi de paralisar as atividades de demanda.

Denise Jeton, recomenda que os pequenos produtores realizem poda apenas da primeira tora, pois não há certeza quanto ao retorno do investimento nesta operação.

“Além disso, deve-se considerar que o preço de toras clear está muito relacionado com a oferta continua do produto e em quantidade suficiente para atender a uma demanda mínima de uma determinada região.” No entanto, a situação é diferente para os produtores que consomem toras livres de nós em suas unidades fabris. Neste caso, a poda pode ser vantajosa.

Apesar desse cenário pouco promissor, Jorge Malinovski acredita que existe mercado para a madeira podada, no entanto, não é tão amplo. Para que o produtor saiba se sua madeira terá lucro com a poda, o diretor ensina uma conta. “A viabilidade econômica da poda se dará, por questões de melhoria tecnológica, quando o diâmetro do corte final das árvores for três vezes maior que o núcleo nodoso confinado. Ou seja, se no momento da poda, a ponta fina tiver 10 cm, no momento do corte o diâmetro daquele local tem que superior a 30 cm. Sendo 20 cm (10 cm para cada lado) são de madeira sem nó”, explica.

Assim como João Mancini afirmou, muitas empresas pararam de fazer poda por não percebem vantagens, sejam elas financeiras ou de trabalhabilidade. Portanto, não há um consenso técnico-econômico sobre o assunto. Em qualquer das situações a dúvida só poderá ser sanada, com uma análise econômica realizada por um engenheiro florestal, e mesmo assim não há segurança total, pois os preços irão variar consideravelmente da data do plantio até a colheita, desta forma, a desrama deve ser encarada como uma forma de diversificação dentro do investimento florestal, sendo realizada somente na primeira tora, ou em parte do plantio.

Fonte: B.Forest / Edição 20 / Maio de 2016

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